“A Multichoise foi por muitos anos a única opção para os angolanos verem o mundo”

Grande Entrevista

“A Multichoise foi por muitos anos a única opção para os angolanos verem o mundo”

Contando com a parceria da TVCABO que comercializa os seus produtos, a MultiChoise definiu a sua estratégia para os próximos tempos com o objectivo de recuperar e aumentar a clientela.

A operar há 18 anos em Angola, a multinacional disponibiliza desde o início de Abril, um novo pacote, designado “Grande+”, que custa 6.600 kwanzas e traz como novidades os canais Sic Notícias, Super Sport Máximo 1 e 2 e o CNN.

A DSTV pertence a um grupo internacional que tem acções nas Bolsas de Londres (Inglaterra) e Joanesburgo (África do Sul). Angola é o seu maior mercado lusófono e na entrevista que concedeu a Revista IP o seu Director Geral, Eduardo Continentino anuncia a abertura de lojas, pelo menos, em todas as capitais das 18 províncias do país e sublinha que não há desânimo perante a crise económica nem diante da concorrência, mesmo havendo fornecedores que detêm a exclusividade de alguns canais de televisão por satélite.

Por Fuzi da Silva

IP – Como é que descreve a Multichoice Angola?

EC – A Multicoice Angola é uma divisão da Jembas, Assistência Técnica, Lda. É parte da Multichoice África Limited (“Multichoice África), operadora de televisão por subscrição pioneira no continente africano, lançou o primeiro serviço digital por satélite na década de 80. A Multichoice África fornece serviços “Pay TV” digitais de multicanais provenientes de Africa, América, China, Ásia e Europa., oferecendo (há mais de vinte anos) tecnologia inovadora e uma selecção de pacotes, contendo canais “Premium” de TV para assinantes em mais de 50 países africanos e ilhas adjacentes do oceano Índico. A mesma é uma operadora de televisão por subscrição multiplataforma que disponibiliza entretenimento em qualquer lugar e momento, através de diversas plataformas e dispositivos tecnológicos, incluindo a DSTV via satélite e a GOTV por transmissão digital terrestre. Enquanto serviço “Pay Tv” de elevada qualidade em África, a empresa assegurou sempre tecnologia, conteúdo e serviço de última geração, o que resultou em melhorias para os seus assinantes.

IP – O que falta para cobrir no continente africano?

EC – Estamos presentes praticamente em todos os países da África abaixo do Sahara, mas em poucos países que falam português. Porém, isto não nos afecta, porque continuamos a investir muito no mercado lusófono a nível de África, especificamente em Moçambique e Angola, que é o nosso maior mercado em português. Temos muito interesse em continuar a investir neste país, onde estamos há 18 anos.

IP – Qual é o balanço que faz dos 18 anos de presença em Angola?

EC – Com base em pesquisas, posso dizer que somos uma marca extremamente querida e reconhecida em Angola. As pessoas lembram e reconhecem que a DSTV foi, durante muito tempo, a única opção para os angolanos verem o mundo. E notamos que isso é reconhecido pelos nossos clientes angolanos. Então, posso afirmar que a nossa penetração neste mercado é muito interessante, baseada neste reconhecimento que recebemos.

IP – Pode falar mais sobre os vossos investimentos?

EC – Assumimos que ao longo destes 18 anos cometemos erros, é normal. Um deles foi ter poucos pontos de presença pelo resto do país: a Multichoise deveria ter estado mais próximo e ser mais acessível aos clientes, facilitar mais os pagamentos, a assistência técnica e prestação de serviços em geral. Começamos a mudar isso nos últimos dois anos, com a expansão da nossa rede de agentes e de lojas próprias, que providenciam um serviço diferenciado e são 100% controladas por nós, porque a qualidade impõe-se. As lojas são muito importantes para os produtos que comercializamos. Já temos 14 lojas e pensamos ultrapassar as 20 até final do ano.

IP – Essas catorze lojas correspondem ao mesmo número de províncias que pretendem abranger?

EC – Ainda não estamos em todas as províncias, mas é justamente essa a intenção. Marcar presença em todas as capitais provinciais. Mas fora de Luanda estamos em locais que não tinham lojas, nomeadamente no Huambo, Benguela, Cuanza Sul, Huila, Saurimo, Cuito, Luena, Caxito, entre outras localidades.

IP – Perspectiva da Multichoice Angola para os próximos três anos?

EC – Todo nosso planeamento estratégico é feito de  três em três anos. Obviamente que 2017 será muito difícil, por conta da questão macroeconómica e os constantes cortes de energia, que tem desencorajado muitos clientes de pagar entretenimento. Tudo isso tido em conta na nossa planificação, e posso afirmar que até final de 2019 vamos registar um crescimento acentuado da nossa base de clientes. Vamos conquistar uma percentagem muito maior em relação à actual, e apresentar um padrão de qualidade que nos permitirá ser reconhecidos por mais de 90% da nossa base de clientes. É essa a meta, o objectivo de todo trabalho que vimos desenvolvendo em torno das infra-estruturas e dos conteúdos fazem parte de uma estratégia desenhada.

Qual é o estado de “saúde” da empresa?

Somos uma empresa sólida, fazemos parte de um grupo sul-africano muito forte que está por detrás dos nossos negócios, que é o “Naspers, que está representado em 120 países do mundo, oferecendo produtos diversificados, sobretudo na área do comércio electrónico. É um conglomerado de mídia com operações principais de meios eletrônicos (incluindo televisão por assinatura, Internet, mensagens instantâneas e tecnologias relacionadas) bem como mídia impressa ( publicação, distribuição e impressão de revistas, jornais, livros e serviços de ensino privado).

IP – Que importância a Multichoice atribui a Angola, entre os 54 países africanos?

EC – Angola está entre os cinco principais países de África, de um total de 50 países em que actuamos. Mas em relação a própria geografia macroeconómica do continente africano, Angola está atrás da África do Sul, Quénia e Nigéria. Até ao advento da concorrência fomos durante 13 anos a única opção de comunicação entre Angola e o mundo e agora percebemos que precisamos de pegar nessa base que foi construída e ampliar, com foco na qualidade e satisfação dos clientes. E pensamos trazer, com o tempo, produtos complementares, porque hoje a Tv não deve ser vista de forma linear, mas sim como multimédia (…).

IP – Qual é a estratégia que a Multichoice/DSTV utilizou para manter a clientela face à crise?

EC -Uma muito forte foi termos facilitado a vida dos clientes, principalmente em relação aos métodos de pagamento. E há melhoria na qualidade de atendimento através do nosso Call Center, nas lojas e,, sobretudo, conteúdos de qualidade com preços justos.

IP – Principais transtornos causados pela crise?

EC – Obviamente temos dificuldades por ter baixado o poder de compra da população, que prefere atender às suas necessidades básicas como a energia, moradia, água, escola, etc. Sofremos obviamente, mas num mercado em que a economia esteja estabilizada ou a progredir em termos macroeconómicos, a tendência é que o nosso negócio cresça naturalmente. Mas como referi, previmos isto. Acreditamos neste país e não é a primeira vez que isto acontece. As crises acontecem são cíclicas e quando passam há recuperação económica. E normalmente essa recuperação vem com força, por isso estamos a reestruturar-nos nesta crise.

IP – A crise causou prejuízos à vossa programação financeira?

EC – Atrapalhou muito, principalmente devido à variação cambial que vamos vivendo, porque os nossos conteúdos estão todos fora, grande parte dos conteúdos da DSTV é paga no exterior do país. E até mesmo os equipamentos vêm do estrangeiro. Logo, a desvalorização do Kwanza e dificuldade de aquisição de moeda estrangeira para pagamentos no exterior dificultou bastante.

IP – Poderia avançar percentagens monetárias em relação as vossas perdas?

EC – O ano fiscal terminou a 31 de Maio, posso avançar que o aumento de clientes foi fantástico já que a nossa base cresceu substancialmente. Mas em termos financeiros foi um ano sofrido. Por exemplo, os nossos preços estão desfasados em 40%. Tivemos um aumento de 10% apenas, uma inflação de 40%, aliada à acentuada desvalorização do kwanza, portanto é um conjunto de situações que nos prejudicou muito. As receitas por si só sempre existiram, mas a crise faz com que os clientes adiram aos pacotes mais baratos. Quer dizer que as receitas já não serão baseadas nos pacotes Premium que são os mais caros mas sim nos mais baratos. Portanto, embora tenhamos conseguido mais clientes, perdemos receitas devido aos factores mencionados.  

IP – De quantos pacotes dispõe actualmente a DSTV, como produto da empresa?

EC – A DSTV oferece aos seus subscritores uma gama de pacotes de canais que combinam qualidade e conveniência, “ajustados aos gostos e disponibilidade financeira dos clientes”, nomeadamente o DSTV Mega, DSTV Bué, DSTV Grande+, DSTV Grande e DSTV Fácil. O mais barato é o fácil (1650 kz), o Bué é o mais caro, (8.690 Kz).

IP – O que origina a retirada ou reinserção constante de canais da grelha desta operadora?

EC -Bem, isto é um negócio. O movimento de canais dentro da nossa plataforma é baseado em contratos e, obviamente atendendo à conjuntura económica temos de ser um pouco mais conservadores em relação à aquisição de canais. Pois não adianta fazer algo sem ter atenção à informação que nos indica quais são os canais que preenchem as necessidades dos clientes, e quais aqueles que agregam valor para nós, mas que não são fundamentais para os clientes. Logo, na hora da negociação com os proprietários dos canais temos de levar isso em consideração. É um negócio, as nossas decisões fazem-se dentro de uma lógica de viabilidade e retorno dos investimentos .É um exercício que fazemos normalmente. Todavia, nunca deixaremos de preencher o pacote de conteúdos que oferecemos, quer dizer, se retiramos um canal de novelas, incluiremos outro mais atraente, com conteúdos que abranjam igualmente novelas.

IP – Quais as razões para o cancelamento dos concursos/programas “The Voice” e “Big Brother Angola?

EC – São produtos internacionais nos quais a DSTV sempre teve interesse. Por serem caros, às vezes e sobretudo agora, atendendo à crise recuamos no investimento nestes conteúdos. Mas estão dentro da nossa grelha e temos direitos sobre os mesmos, a qualquer momento podemos reactivá-los.

IP – Podemos dizer que o reajustamento de pacotes tem a ver com a fuga de clientes para operadoras que prestam serviços similares?

EC – A concorrência existe, é bem-vinda e salutar. Temos de olhar para os concorrentes com cuidado porque motivam a nossa actuação e melhoria. Mas na verdade tem muito a ver com a necessidade de se preencher algumas lacunas com ofertas interessantes, mas não é a fuga de clientes que nos faz replanificar a gama de produtos que oferecemos, mas sim o contrário, é a replanificação que nos permite angariar cada vez mais clientes.

 

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