“As TICs são básicas para o crescimento da economia”

Engenheiro Informático pela Universidade Católica de Angola, Osvaldo Ramos viu no segmento da formação, uma oportunidade de negócio, e de contribuir para o desenvolvimento do país. É mentor do Centro de Formação Ramossoft, dedicado essencialmente à formação e serviços na área das  tecnologias de informação e comunicação.

IP – Como descreve a Ramossoft?

O.R. – É uma Empresa angolana, criada sem nenhum financiamento ou capital inicial. Não é fácil mas é possível criar uma empresa apenas com o conhecimento. É empreendedorismo nato e puro.

IP – Como surge a ideia para a sua criação ?

O.R – Descobri com ajuda de colegas na universidade o dom para ensinar. Durante anos dei explicações de disciplinas chave da universidade Católica aonde me formei e ajudava colegas a fazer projectos de programação. Pagavam-me para isso. Chegou uma altura em que a demanda cresceu e mudei de estratégia, convenci os colegas a criarem turmas para lhes ensinar a fazer de raiz os seus próprios projectos ao invés de fazer eu por eles. Surgiu aí a ideia das formações.

Nas férias dava aulas aos colegas da minha e outras universidades e aquilo foi “viralisando”, fui obrigado a alugar um espaço (no Cazenga) onde dei formação entre 2010 e 2015, já tinha trabalhado em Centros de Formação entre 2006 e 2009. A minha fama formador correu até as províncias, lembro-me de receber alunos de Cabinda e de outras províncias, em tempo de férias, queriam formações nossas por ter ouvido falar da qualidade do ensino.

A diversidade de cursos foi crescendo, tive de arranjar formadores com qualidade e outros cursos foram entrando aos poucos na nossa lista de acordo com as solicitações, mas no princípio eram apenas cursos sobre TIC’s.

IP – E então mudou de foco?

O.R. – Em 2015, mudamo-nos para Viana, aonde estamos e adicionamos ao nosso portefólio cursos de Locução Fonética e Fonologia na Língua Portuguesa (ministrado pelo jornalista e formador Carlos Alberto). Teve aproximadamente 200 alunos, nos primeiros anos.

Na Ramossoft os formandos também reprovam, apesar de pagarem os cursos. Estamos mais comprometidos com a qualidade. Muitos alunos fizeram formações e deixaram contas por pagar, outros recebem bolsas dadas por órgãos de comunicação que são nossos parceiros. Fazemos feiras, palestras e promovemos muitas outras situações filantrópicas que demonstram o nosso comprometimento com o desenvolvimento do país. Não se trata de ganhar dinheiro apenas.

IP – Os objectivos que levaram à criação do Centro foram atingidos?

O.R – Sim, almejávamos um Centro de Formação de excelência no ramos das TIC’s, e estamos nos primeiros lugares quando se trata de formação profissional nessa área. Temos experiência mas fazemos questão de não descurar o rigor e a qualidade, mas ainda não alcançamos os nossos objectivos neste segmento de negócio do ponto de vista financeiro, ou seja, ainda não se faz mesmo dinheiro com formação profissional em Angola.

IP – Por quê?

O.R – Primeiro porque durante muito tempo as pessoas não se preocupavam com formações devido à falta de meritocracia na selecção de pessoal, as grandes empresas, que deviam ser os nossos maiores clientes do ponto de vista financeiro, preferiam enviar os trabalhadores para formações fora do país porque não acreditavam na qualidade dos quadros locais, e finalmente, o nosso publico alvo, são jovens e estudantes, não têm poder financeiro mas fazemos questão de ficar com eles porque acreditamos que o dinheiro virá no futuro como consequência do nosso empenho. Investi neste no ramo porque gosto de partilhar conhecimentos mas acima de tudo, amo o meu país e os meus irmãos!

IP – Com que outras áreas a empresa está comprometida e qual é o seu posicionamento no mercado?

O.R – A Ramossoft também presta serviços especializados no ramo das TIC’s. Uma das principais actividades é o Desenvolvimento de Software, instalação e configuração de Servidores, redes estruturais, câmaras de vídeo vigilância, centrais telefónicas, criação de Websites, aplicativos mobile e muito mais. No desenvolvimento de Software somos líderes entre as empresas angolanas. Há serviços que são fruto das parcerias que temos e também da qualidade dos quadros formados nos nossos centros.

IP – Quais têm sido os maiores desafios na área da formação?

O.R – Primeiro é a dificuldade para se conseguir formadores qualificados, existe grande escassez de quadros qualificados no país e na área da TIC’s mais ainda. Existem muitos quadros licenciados/formados no país, mas sabemos que tem que se que trabalhar muito no quesito qualidade. Por outro lado, há técnicos que são excelentes profissionais mas não são bons formadores, isso dificulta a manutenção do quadro docente. A complexidade e excesso de burocracia da banca angolana é outro problema. Os bancos preferem apostar em imobilizados corpóreos do que incorpóreos, vão sempre preferir financiar um projecto de construção de um hotel, um condomínio ou algo similar do que investir num Centro de Formação Profissional, lamentavelmente. E os equipamentos para  os cursos técnicos são muito caros, então já podem imaginar a ginástica que é preciso para ter uma formação de qualidade com poucos recursos financeiros.

IP – Diante deste quadro de dificuldades como as têm ultrapassado?

O.R. – A única saída que me restou foi “usar a Engenharia na Gestão da Empresa”. Tentar sempre fazer as coisas acontecerem independentemente das dificuldades que surgem, usar muito lógica de programação na tomada de decisões. Usar ao máximo métodos de persuasão e negociação para manter formadores e comprar equipamentos, e pedir sabedoria à Deus porque dificuldades sempre existirão.

IP – A crise económica afectou-vos? Que balanço faz ?

O.R – A crise económica para a nossa empresa trouxe um momento muito bom, a principio, gente que preferia comprar fora do país com a escassez de divisas passou a procurar serviços locais e nós beneficiamos disso, mas depois de um tempo as pessoas tiveram mesmo que deixar de comprar certos serviços porque o seu poder de compra baixou e também saímos prejudicados porque tivemos que baixar consideravelmente os preços e ficamos com muitos valores por receber de clientes. Mas de modo geral, faço um balanço positivo do projecto Ramossoft pelas conquistas patrimoniais e pelo status e lugar que ocupa no mercado. Estamos sem grandes valores financeiros mas com valores económicos. Quem percebe de gestão, sabe que o valor económico pesa mais que o financeiro, portanto o balanço é positivo, mas podíamos ter feito mais se as circunstâncias permitissem.

IP – Tiveram que despedir funcionários ou diminuir custos em função da crise?

O.R. – Sim, fomos forçados a diminuir pessoal e reduzir ao máximo as despesas ou nem existiríamos, lamentamos muito mas é algo que não depende só de nós.

Nas próximas semanas publicaremos o resto da entrevista concedida por Osvaldo Ramos, que nos falará sobre os cursos e serviços mais procurados pelos clientes do Ramossoft e acerca dos planos para o futuro desta instituição.

Fleyr Cursos Gerais Ramossoft (1)

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