Apelo à informatização das instituições

Engenheiro Informático pela Universidade Católica de Angola, Osvaldo Ramos é fundador e Director do Centro de Formação Ramossoft, na continuação da entrevista que concedeu a revista IP ele aborda a necessidade de informatização dos serviços públicos em Angola e fala das perpectivas para o futuro da Ramossoft.

Que cursos são leccionados e qual tem sido o grau de aproveitamento?

O nosso maior forte tem sido a formação na área das TIC´s (linguagens de programação, redes, base de dados, etc.. O aproveitamento tem sido muito bom, os formandos são avisados de antemão que podem reprovar e como ninguém quer perder o seu dinheiro, são obrigados a estudar a sério.

Quais são os cursos mais concorridos?

Redes Estruturadas, Curso de Redes da Cisco (CCNA), Curso de vídeo vigilância (CCTV), Instalação e configuração de Relógios Biométricos, Curso de Programação em C e Java e o curso de Inglês.

Como encara a concorrência no sector da formação?

Investir em formação não é ainda muito rentável, a concorrência é pouca, uma vez que as pessoas preferem investir em negócios de curto prazo e lucro fácil, em formação é um investimento de médio/longo prazo e acima de tudo, um gesto de amor ao próximo.

Regista-se ainda um grande vazio em termos de qualidade, sobretudo nas províncias, porque temos recebido muitos alunos que vêm das províncias. Sentimo-nos bem no mercado porque há espaço para outros e trabalhamos para nos mantermos e melhorarmos.

É engenheiro do ramo das TICs, como vê este sector no país?

Para esse assunto precisaria de umas 30 páginas, mas resumindo, creio que o país teve um crescimento acentuado no sector das TIC’s nos últimos anos (do ponto de vista de investimentos do Estado e dos empresários, e no acesso às TICs. Muito mais pessoas vivem as vantagens das TIC’s. O crescimento foi tão grande quanto o número de pessoas que quiseram investir, e consequentemente, isto trouxe-nos muita mão-de-obra estrangeira, agora temos dificuldade em substitui-la pela nacional.

Como assim?

Não acreditamos nos angolanos, que, já vão estando ao nível dos expatriados. Existem entre nós muitos complexos, preferimos dar ouvidos a uma mentira de um estrangeiro do que ouvir uma verdade de um angolano, sem desmerecer os que têm contribuído para o nosso crescimento, mas infelizmente isso acontece e há consequências graves, não se dá trabalho aos técnicos angolanos formados dentro e fora do país e pagam-se estrangeiros que fazem o que muitos angolanos, as vezes, até melhor, podem fazer.

Os empresários, dirigentes etc. não têm o hábito de usar soluções tecnológicas para a gestão e automatização de processos. Mais de 90% das Empresas e Instituições públicas do país precisam de Software, mas a procura continua “tímida”.

Como é que um empresário presta contas ao Estado usando sistemas de facturação e contabilidade arcaicos? Como o gestor público melhora trabalhando de forma centralizada e manual? Se quisermos acelerar o crescimento económico e organizacional do país temos que usar ao máximo as novas tecnologias.

Contam-se as empresas e instituições públicas que têm, por exemplo, um Sistema Integrado de Gestão de Recursos Humanos, um Software de gestão de correspondências, de facturação, etc. Ainda usamos cadernos para anotar as pessoas que entram e saem das instituições, contam-se as que têm um Sistema Integrado de gestão Documental, Gestão Orçamental.

Não sei se existirá algum hospital que tenha um sistema integrado de gestão hospitalar para cadastro dos médicos e pacientes, para agendamento, e registo do histórico clínico, estatísticas fiáveis, etc. A maioria não tem um Website. Por isso, apelo aos nossos dirigentes que trabalhem na informatização das instituições e que antes de comprar fora do país, consultem o mercado local, porque há serviços que já podem ser feitos localmente.

Estamos sem conectividade a um satélite próprio, mas passamos a ter ligação directa com cabos de fibra óptica. Que vantagens trarão estas ferramentas?

Creio que as principais vantagens dos cabos de fibra óptica, são o aumento da qualidade das conexões de Internet, diminuição nos custos das operadoras e provedores portanto uma redução significativa nos custos das TICs para o consumidor final. São infra-estruturas que poderão também dinamizar o sector das TIC´s, estimulando a abertura de empresas de prestação de serviços e trazendo empregabilidade.

Que projectos tem a Ramossoft para médio-longo prazo?

Vários, abriremos a nossa fábrica de Software que está a ser construída há cerca de 8/10 anos. Por sermos pioneiros no sector, queremos instalar a cultura de uso de Software sobretudo entre os empresários e estudantes, prestando esses serviços a preços acessíveis e com formas simples de usar.

Vamos abrir o complexo Escolar Ramossoft no próximo ano lectivo. Trabalhamos nisso há 10 anos e hoje, a pedido de muitos, sentimo-nos preparados para lançar uma instituição de ensino que traga diferenciais ao mercado. O segredo para se ter bons profissionais, está na base, por isso pretendemos implementar um colégio (da iniciação ao 2º ciclo) que ensinará informática e inglês a partir da 1ª classe e aulas de lógica de programação a partir da 5ª classe. Queremos formar os melhores programadores do país nos próximos tempos, e quando os alunos que começarem connosco ingressarem no ensino superior, poderão continuar num Instituto Superior Tecnológico que teremos a funcionar para os receber.

Ou seja, daqui a 5/10 anos abriremos um Instituto Superior Tecnológico, aonde os primeiros alunos serão aqueles que tiverem estudado na nossa escola no Ensino primário, 1º e 2º ciclo, estes terão acesso direito ao instituto superior enquanto os restantes terão de fazer testes de admissão nada fáceis.

A médio-longo prazo queremos abrir um Instituto Superior Tecnológico com cursos só sobre TIC’s, com o que de melhor houver no mercado e com um centro integrado de estágios tecnológicos, uma vez que muitos formandos não têm onde fazer estágios, à par do instituto superior teremos um centro de estágios para os nossos alunos.

Há algum aspecto que considere oportuno abordar?

Apelo novamente aos empresários e dirigentes públicos para a informatização e automatização dos seus serviços, estaremos a valorizar e a estimular a produção local, porque o custo e a actualização desses serviços quando adquiridos fora do país, fica mais caro do que o próprio produto e muitos projectos ficam parados.

Aos nossos bancos, digo o seguinte: “ A Fortuna de Bill Gates” é superior a fortuna de 64% dos países do mundo. É caso para dizer que se está a desprezar um sector que pode dar muito a economia do país, cuja diversificação não deve passar apenas pela agricultura. Um dos maiores contribuintes para o PIB da Índia é a indústria de Software e de formação profissional. Agradecia que pensassem nisso.

 

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